Dança-educação

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Edição de 19h02min de 4 de setembro de 2011

A dança e a educação são áreas do conhecimento distintas e autônomas. As diferenças se situam no objeto de suas investigações e no modo de operar o pensamento articulado. O termo dança-educação conjuga estas duas áreas num terceiro problema, o ensino da dança para crianças e jovens no contexto escolar. Pode-se afirmar que a crescente importância das reflexões acerca do ensino da dança nas últimas décadas se deve, dentre outros fatores, à inserção da dança nos currículos das escolas através da Lei de Diretrizes e Bases de 1996.


Dança-educação, portanto, circunscreve um universo de questões próprias, e não é o único termo a definir as questões vinculadas ao ensino da dança para crianças e jovens. De acordo com Isabel Marques e Márcia Strazzacappa outros termos utilizados para o mesmo propósito são: dança criativa, dança/educação, dança educativa, dança para crianças, dança educacional, e tantos outros termos derivados ou reformulados em neologismos.


Tabela de conteúdo

O contexto educacional da dança hoje

Uma questão que esteve em voga durante meados da década de 90 foi a conscientização dos profissionais de dança sobre a importância da formação acadêmica em licenciatura para aqueles que trabalham diretamente com a área pedagógica. Como aponta Strazzacapa, o histórico da dança no Brasil conta com um extenso número de iniciativas atomizadas de inserção da dança nas escolas como parte extracurricular do ensino. Desta forma, a dança a muito tempo estave presente nas escolas, mas sem contar com profissionais especializados para exercer a função pedagógica e muitas vezes servindo para atividades lúdicas de comemoração de feriados nacionais ou finalização do ano letivo.


Outro dado importante sobre este contexto é que quando era inserida no currículo formal a dança era um componente da disciplina de educação física, o que direcionava seu ensino para o aprofundamento de aspectos fundamentais da saúde e da socialização, e por outro lado, deixava-se de aprofundar as questões especificas da dança, ou seja, o incentivo à criação e o conhecimento artístico através da sensibilização estética.


O número de cursos de bacharelado e licenciatura em dança no Brasil cresceu entre 1990 e 2011. Também em função da inclusão da dança nas escolas com a LDB/96 através dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a preocupação em relação ao ensino aponta para a importancia crescente das pesquisas em dança no Brasil.


Contudo, ainda hoje permanece o caráter informal dos educadores de dança em muitas realidades escolares. Não é uma prática comum que os professores de dança de projetos sociais e academias de dança tenham a formação acadêmica para a prática profissional. Isto se deve a uma série de fatores econômicos e culturais, e a dicotomia entre o saber e o fazer permanece como um fronteira que separa os "verdadeiros" bailarinos daqueles que tiveram que se conformar com um emprego como professor de dança.


A origem do termo

Em meados do século XVIII a Revolução Industrial e as transformações políticas que geraram a Revolução Francesa foram fatores determinantes para a formação do pensamento moderno. Os pensadores iluministas, precursores do estabelecimento do Estado Moderno, defendiam a existência de características inatas de todos os seres humanos. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é um dos principais representantes do iluminismo, o pressuposto de suas teorias é a origem pura dos homens, corrompida no convívio e na formação posterior em sociedade. Portanto, foi somente neste período que a criança se tornou objeto do conhecimento.


Com a virada do século XIX para o século XX, a turbulência das revoluções fomentaram transformações ideológicas e políticas que influenciaram e foram influenciadas por questionamentos centrais no campo das investigações artísticas. Dentre os ideais buscados, a possibilidade insurgente da construção de um novo mundo compõe a essência das criações de importantes pensadores da época. Novos paradigmas em torno das criações em dança surgem, sendo Isadora Duncan (1877-1927) e Vaslav Nijinsky (1890-1950) as duas figuras centrais da dança no ocidente que desencadearam um contínuo processo de rupturas e transformações com o balé clássico1.


Neste contexto, a Dança Moderna surge a partir da negação de uma técnica exterior ao corpo, que enquadra a diversidade dos corpos e dos movimentos num único padrão idealizado, perfeito. Para tanto, os primeiros pensamentos acerca de uma nova técnica de dança priorizavam a expressão autêntica dos indivíduos, de suas sensações e sentimentos. Dentre outras importantes contribuições filosóficas para a concepção dos novos paradigmas da dança, Rudolf Laban (1879-1958), na Inglaterra, e Margaret H'Doubler (1889-1982), nos Estados Unidos, foram os primeiros a pautar também as questões em torno deste par, dança e educação, para o universo infantil.


De acordo com Marques, ambos fundamentaram seus pensamentos em consonância com as aspirações de um novo mundo. Em seus trabalhos é possível localizar um resgate dos pressupostos filosóficos iluministas que pautavam uma natureza humana pura, em que a espontaneidade, a ingenuidade e a liberdade caracterizavam aspectos centrais na formação das crianças para mantê-los próximos da essência humana e, portanto, distantes da corrupção promovida pelo convívio em sociedade:

"Embora não se tenham evidências de que os trabalhos artísticos quer de Laban ou de H'Doubler
tenham sido inspirados e/ou baseados na dança da criança, no plano educacional esta conscepção de
arte aparece de maneira bem clara à medida que também acreditavam e defendiam a liberdade, a
ingenuidade, a espontaneidade e sobretudo a naturalidade a priori contidas nas danças das
crianças. Para esses autores, a 'expressão através da atividade corporal espontânea é tão natural
na criança quanto respirar' (H'Doubler, 1977: x), ou seja, 'a vontade inata da criança de fazer
movimentos do tipo de dança é uma forma inconsciente de extroversão e exercício que a introduz ao
mundo da fluência de movimento e fortifica suas faculdades espontâneas de expressão' (Laban,
1985: 12)." (MARQUES, 2010: 145).



1. Estilo de dança que predominava nas produções artísticas de dança desde o renascimento. Legitimada pela corte, o balé clássico exercia um poder hegemônico perante outras modalidades de dança, esta eram consideradas até então como manifestação populares que não adentravam o hall das grandes artes.


Problematizações

O debate em torno do termo remete, de modo geral, a tendência à formalização de um modo específico de ensinar a dança. Ao longo do tempo aquilo que em meados do século XX foi uma iniciativa necessária e transformadora encontrou um lugar de conforto nos dias atuais e define um campo de atuação com pressupostos predeterminados. A questão preemente, então, é como manter em movimento a prática pedagógica da dança.


Segundo Marques, o pressuposto filosófico que estabelece condiçoes universais e inatas a todo o ser humano não condiz com as questões do ensino da dança hoje. Não se trata mais de inverter a lógica do ensino do professor para o aluno, onde este possa exercer suas aptidões de maneira autônoma. Trata-se sim de considerar os diferentes contextos em que cada criança é formada para estabelecer, juntos, uma estratégia de ensino que englobe o auto-conhecimento, o pensamento crítico (amplo, profundo e claro) e a outridade:

"'Outrar-se' é permitir que o outro se coloque dentro de nós, é saber escutar as vozes
poéticas e não se sobrepor a elas com argumentações e discussões antes dessas vozes serem ouvidas
(Brazil, 2001). [...]Um dos papéis inequívocos da arte na educação do ser humano é propiciar esses
momentos de 'outridade', é provocar o espectador a ouvir a voz do trabalho artístico para além de
seus aspectos técnicos ou estruturais." (MARQUES, 2009: 33).


Outra questão que deve ser considerada para pensar o elo entre dança e educação se refere às transformação no modo de operar o pensamento em nossa era. Neste contexto em que os saberes são invertidos em informações, o processo de socialização por fragmentos constitui um novo dado da realidade. E um questionamento relevante trazido pela autora acerca do termo dança-educação remete ao anacronismo histórico que o termo situa no dias atuais, em que:

"(...) influenciadas e construtoras das múltiplas realidades por elas vividas, percebidas e
imaginadas, as crianças do mundo contemporâneo vivem em teias de relações multifacetadas entre seus
corpos, movimentos, danças, família e sociedade poderiam, ao contrário do que sugere a 'dança
criativa', ser direta e explicitamente trabalhadas em sala de aula por meio de conteúdos
específicos da dança." (MARQUES, 2010: 154).


Com base neste argumento e rumo à um sentido complementar, talvez seja possível planejar uma reestruturação do termo ao invés de sua exclusão ou desvalorização. Mesmo conscientes de que o termo é localizado em um tempo e um espaço definidos, e que, portanto, correspondia a questões datadas, o conceito pauta um questão preemente ainda para os nossos dias, a inversão de uma lógica funcional-estruturalista que privilegia o âmbito do pensamento racional em detrimento da apreensão experiencial, concreta.


É necessário consolidar este novo olhar para a vida em que corpo-mente constituem uma via de mútuas causalidade, e para isso é possível dar vida renovada aos conceitos e tratá-los em seu movimento constante. No mesmo sentido que propõe a autora na passagem acima, uma proposta para esta jornada de reflexões e práticas educacionais na área de dança prescinde a investigação de propostas transdisciplinares, no que concerne ao currículo dentro das escolas, e a contextualização dos sujeitos em suas próprias realidades políticas, sociais e culturais.


Contudo, ao invés de negar, é possível que esta proposta dê ensejo à novos sentidos do termo dança-educação, ou dança criativa, dança educativa e tantos outros sinônimos. Tendo em vista que a prática educacional da dança no Brasil é um tema que deve ser continuamente colocado em questão, não somente no questionamento de seus conteúdos e metodologias, mas principalmente sobre como a especialidade deste conhecimento em arte pode contribuir no desenvolvimento humano das pessoas no contexto em que se inserem, o termo dança-educação pode servir para localizar as investigações contemporâneas daqueles que trabalham diretamente neste campo de confluências.


Referências


MARQUES, Isabel A. Dançando na Escola / Isabel A. Marques. - 5 ed. - São Paulo: Editora Cortez, 2010.


Vários Autores. Algumas perguntas sobre dança e educação / Org. Airton Tomazzoni, Cristiane Wosniak, Nirvana Marinho. - Joinville: Nova Letra, 2010.


STRAZZACAPPA, Márcia. Entre a arte e a docência: A formação do artista da dança / Márcia Strazzacappa e Carla Morandi. - Campinas/SP: Papirus, 2006.


Ver também


MARQUES, Isabel. Corpo, dança e educação contemporânea. Pro-Posições (FE/UNICAMP) - Vol. 9 N° 2 (26) Junho de 1998.

RENGEL, Lenira. Dicionário Laban / Lenira Rengel. - São Paulo: Annablume, 2003.

Site Faculdade Angel Vianna - V Seminário da FAV

Site Festival de Dança de Joinville - Seminários de Dança

Site Grupo de Pesquisa Laborarte da FE/UNICAMP

Site Caleidos Cia de Dança

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